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Margarida Brum

Bom fim-de-semana, António

 

Quando se está a construir uma escola por dentro e se tem a responsabilidade de ajudar a crescer os filhos das outras pessoas não se pode ter pressa de ir para casa, mal toca a campainha para a saída das aulas. Mesmo que o apelo do trabalho artístico, a pressão da data de entrega das obras e o resto da vida em geral aconselhasse o contrário.

A verdade é que o António Júlio não era pessoa para seguir conselhos banais ou colocar os seus interesses em primeiro lugar.

Sem nunca perder o traço forte da sua personalidade, ele gostava de coisas colectivas, de se se envolver nas batalhas pelo que era mais certo, de abrir as portas das salas de Desenho enquanto estavam todos a trabalhar, de sair em direcção à vida e à arte, levando as suas turmas até ao mundo que pulsava para além do portão da escola.

Não era escultor de alunos, não precisava de os moldar a seu jeito e não queria discípulos, mas tinha aquela intuição dos mestres sobre o potencial dos mais promissores e estimulava os outros todos, mesmo aqueles que lhe diziam: - Oh stôr, eu desisto, que só me saem mamarrachos! 

Também gostava muito dos colegas.

Com os homens tinha aquele tipo de amizade leve e zombeteira que disfarçava mal a disponibilidade para ajudar, se fosse preciso e acarinhava as colegas com pequenos gestos de galanteria ou de solidariedade, quando a vida nos pesava mais. Com pudor e discrição; com uma elegância de tempos antigos.

Ele gostava do que era “antigo” na sua vida: a província, aonde regressava sempre; os primeiros tempos de Lisboa; os anos de ir à faculdade. Até da guerra ele não se importava de falar. Com raiva e revolta política mas com saudade dos camaradas dos quartéis e uma ironia cáustica sobre os mais diversos episódios da sua estadia em África. Até parecia geometria no espaço enquanto ele estava a contar as suas histórias: a gente via tudo. Ou então parecia um Desenho, que disso ele também sabia.

Gostava igualmente da vida reinadia da escola: grandes sardinhadas no pátio do recreio, passeios de falua, almoços nas tascas, que o dinheiro era pouco e não chegava para mais.

 

Envolvia-se também nas actividades em que os alunos e os professores mostravam publicamente o seu empenho e o seu trabalho: Exposições, carnavais, comemorações do 25 de Abril, filmes da Liliana Cavani, que passávamos para as turmas na Sociedade de Recreio do Laranjeiro.

Do que ele não gostava mesmo era de fazer actas. Compreende-se. Um artista não cabe na camisa-de-forças de um registo escrito tão codificado como é uma acta. Por isso, a melhor prova de companheirismo que lhe podíamos dar era redigir as actas na vez dele.

A amizade tem destas coisas. Destas e doutras, como guardar sempre um bom lugar no coração e na memória para os que se foram embora muito cedo.

No caso do António ficará sempre a lembrança de quando ele entrava na sala dos professores ao fim da tarde de 2ª feira para nos dizer, ritualmente:

- Bom fim-de-semana a todos.

- Bom fim-de-semana, António!...

© Luis Espada 2021

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