
Louro Artur
Mestre António Júlio
Página Revisitada
Numa memória associativa que o Escultor muito prezava, escreveu sobre a sua Obra a meu pedido, incorporando Texto e imagens, para o livro do aniversário (Imargem 1982-2002) da Associação de Artistas Plásticos de Almada. Ele Presidente da Assembleia Geral e eu Presidente da Direcção. Ambos focados nos vinte anos ada Associação, depois do sucesso em 2001 da Exposição anual da Galeria Municipal. Evento que homenageou O Pintor José Azevedo e a Sociedade Nacional de Belas Artes de Lisboa que fazia 100 anos de existência. Tempos agradáveis que se misturavam com tempos agrestes, na vida das Associações que partilham os mesmos princípios. O António enviou assim, com algumas reservas, duas imagens de um texto que seleccionou e organizou, de acordo com a sua identidade mais familiar no momento.
Sabendo a perda de escala das imagens perante a sua realidade, compôs o conjunto de reproduções de forma criativa, edificando a sua oficina-atelier e uma peça escultórica expressiva. A oficina de um escultor é um espaço cultural onde se combinam os valores do trabalho, manual ou mecânico, técnico ou tecnológico, com o gesto de criar, através de uma Revelação nascida por experimentação desenhada, ou pela paixão que se descobre num olhar. A esta poética simbólica, acrescentam-se na contemporaneidade os processos investigativos, conduzidos por metodologias que os Artistas Plásticos e os Designers desenvolvem. António Júlio conhecia bem este universo de reflexão. A sua imagem na sombra, abre para a luz a sua mão, num gesto firme de polimento da peça. Momentos importantes em que o mistério da arte se joga entre os olhos e a mão do escultor.
A imagem maior na composição da página, evoca uma presença cenográfica da obra escultórica. António Júlio escolhe o melhor ângulo da peça a ser observado, introduzindo-lhe valores comunicacionais de fruição, susceptíveis de motivar o observador a conhecer a sua realidade. No conjunto de interpretação fotográfica o Artista compõe uma linguagem visual de forma e fundo, estabelecendo dois planos repartidos por um simulacro de panejamento, a lembrar a sua pintura de características abstractas, numa envolvência de tons brancos de luz, abertos para um diálogo da superfície tangível e texturada. A imagem reproduzida pela fotografia, deixa-nos um parente claro-escuro, afastando-se da pureza da sua paleta, nascida de um olhar sensível dos brancos de mármore que assiduamente trabalhava.
Na generalidade a peça escultórica nasce de um ou mais desenhos preparatórios. Desenvolve-se entre os valores do desenho e as características dos materiais, edificando-se numa comunhão conjunta. Princípios reflectidos pelo Mestre António Júlio, que pormenoriza no texto que nos deixou. ”Sabemos que uma superfície texturada, ou não absorve ou não reflecte mais ou menos luz, iludindo a nossa percepção desses volumes que constituem as formas e implicam por isso, relações de proporções. Os volumes das formas e os seus vazios, diluem-se ou acentuam-se em função da incidência da luz”. Sempre os materiais e a luz, que ao envolverem a peça, saem dela como um abraço comunicativo. Senso táctil e espacial, e uma tentação circular de alguns elementos pétreos e metálicos, em contraste com a informalidade de outros. A cor e os seus tons, presentes na composição da escultura (mármores portugueses) e na sua orientação vertical, animam a visão abstratizante da peça. António Júlio definiu, por si só, uma vivência de descomprometimento em relação à abstracção ou figuração, registando no sentido estrutural, o universo de ambas, sem qualquer interpretação narrativa.
António Júlio nasceu em Chaves em 1951 e faleceu em Almada em Dezembro de 2015. Escultor, Pintor e Associativista, tem um extenso e notável currículo cultural e artístico. Em síntese, distingue-se a escultura pública monumental no Jardim da Cova da Piedade (Andrógeno) desaparecida por incúria de alguns homens responsáveis (?); Memorial no CCC da Costa de Caparica; Monumento à “Solidariedade” no Laranjeiro – Almada; Altar, Pia Baptismal e Sacrário na Igreja da Sagrada Família (Arte Sacra) em Miratejo - Seixal; Monumento à “Fraternidade” no Laranjeiro – Almada; Encontra-se referenciado no acervo da Câmara Municipal de Almada; no acervo da Câmara Municipal de Sintra; no Museu da Câmara Municipal do Sabugal; na E.S.E. de Setúbal; No Instituto Irene Lisboa; Junta de Freguesia do Laranjeiro e Feijó; Mútua dos Pescadores de Lisboa; Ruben Cunha – Associação Portuguesa de Apoio à Vítima. Encontra-se também referenciado a nível internacional em Espanha, Bélgica, França, França e Rússia. Não termino esta memória de um amigo, sem deixar de falar de um projecto associativo que o António nos deixou. Tratava-se de um evento de Escultura localizado na Costa de Caparica. Com estaleiro perto do bairro dos pescadores, reunia escultores convidados que trabalhavam a pedra vinda do Alentejo, em blocos individualizados. Esta “Escultura ao vivo”, que se realizava entre os meses de Agosto e Setembro, com desenhos preparatórios em exposição, na velha Escola Primária perto do estaleiro. Quinze ou vinte dias de trabalho de escultura, com alojamento dos artistas, e oferta das peças para serem colocadas em espaços da Costa. O acto cultural e artístico, teria apoios da Câmara Municipal sob orientação da Associação de Artistas Plásticos de Almada.
Almada, 22 de Março de 2018
Um abraço de saudade António, e um beijinho para Elsa Pinheiro, dinamizadora do evento
Louro Artur, Pintor
