
Elizabete Oliveira
A António Júlio professor e sempre escultor
Elisabete Oliveira*
Encontrámos António Júlio (AJ) tangencialmente em 1984-1985, na Escola Secundária D Pedro V: seria o último dos nossos vinte anos de Ensino do 3º Ciclo Básico - Ensino Secundário, antes de transitarmos à FPCE.U; e para AJ - em simultâneo com Elsa Pinheiro, era o tempo esforçado do 2º ano de Estágio Pedagógico profissionalizante.
Não assumíramos a supervisão da Formação porque recém-chegáramos de quatro anos no University of London Institute of Education; mas tínhamos responsabilidade na qualidade do ensino no Grupo de Educação Visual, tendo acompanhado atentamente a vertente pedagógica da acção de AJ, com a qual convivíamos e que aqui testemunhamos.
Nos Projectos correntes com as turmas, à busca formal de resolução de problemas sempre aliava o despertar do sentido cívico dos alunos com a comunidade: como na concepção de um circuito de educação física e respectiva sinalética, explorando o movimento e grafismo, mas também ao encontro do seu gosto pelas modalidades desportivas tão formativas dos jovens; e sensibilizando às escolas onde tal era inexistente e ao recurso ecológico, a materiais reciclados (composição com paus de gelado…).
Face a uma supervisão de Estágio adversa, teve de dar o seu melhor até não deixar margem para dúvidas sobre o seu altíssimo merecimento: o ponto máximo terá sido quando o nosso Grupo Docente de Educação Visual foi escalado para trabalho de Secretaria no Verão de 1985; e a Direcção da Escola aceitou a contraproposta da realização de obras de Expressão Visual para o espaço público da Escola. Os Alunos com Projectos de sua autoria seleccionados - e os colegas em apoio -, vieram voluntariamente à Escola por cerca de um mês: esta participação exigiu que eles estivessem plenamente confiantes na orientação e competência integral de António Júlio; e felizes - fascinados, diríamos -, ao verem, com o apoio do seu saber técnico e estético, concretizadas as obras de grande porte que tinham imaginado: valores e realização-em-equipa, essenciais especialmente entre adolescentes… partilhando uma cerveja fresca com o Mestre, com quem ombreavam o trabalho voluntário suado, nessas tardes de férias escaldantes. Registámos em imagem, o Stabile-Cubo e o Mobile resultantes: todas as soldaduras foram garantidas por António Júlio, ao apoiar toda a montagem. Nessa ocasião, com outros alunos, a Professora Eduarda Feio promoveu a pintura da empena de c. 10m de altura, no exterior do Ginásio; e nós orientámos uma interpretação do carácter do Patrono da Escola, D Pedro V, painel de c. 3m de largo, para o fundo da Sala de Convívio: como se não bastasse o enorme trabalho com os seus alunos, António Júlio - com os seus óculos quebra-luz de soldadura -, prestou-nos um generoso apoio, fazendo - com metais das cadeiras estragadas pelos alunos, recuperados da carpintaria, -, todas as soldagens necessárias para que o contraste de uma grande ave soturna e uma dinâmica série quente de quadrados, se destacasse do suporte parietal pintado.
Como reflexo da auto-amplificação necessária da sua obra plástica, António Júlio-Escultor, comunicou a energia transformadora da sua arte: registamos a sensibilização cultural e capacitação instrumental a que abria os seus alunos, incentivando vocações. Por exemplo, os projectos na histórica Ficha Nº 77 - que incluímos em Exploratório.
1. Stabile-cubo, do futuro escultor Bruno Sousa (prematuramente falecido por acidente de carro no Tejo). Pormenor. Foto EO.
2. Mobile criado por João Boléo: expressivo de valores humanos de superação, em solidariedade. Pormenor. Foto EO.
Fig.s 2. e 3. Projectos do E.º Secundário orientados por António Júlio:
integram o Exploratório-Piloto de Educação Artística da Universidade de Lisboa
- ExplorEAUL In: Oliveira, E., 2004-5. Tese de Doutoramento; e Livro de 2010:
Educação Estética Visual Eco-necessária na Adolescência. MinervaCoimbra**.
Fotos: EO.
ExplorEAUL - FICHA Nº 77
**O Exploratório-Piloto, neste Livro, reúne os 200 Projectos de Educação Visual/ Artes Visuais que seleccionámos como mais inovadores, dos anos ’40 a 2010; e está em progresso contínuo, com 204 Fichas e materiais já publicados para chegar a 300. Estas Esculturas de alunos resistiram mais de vinte anos no jardim da Escola Secundária D. Pedro V em Lisboa, até à remodelação da Parque Escolar, 2008-2009. A Escola não acudiu à degradação destas obras, por não valorizar os Projectos dos alunos no seu espaço público, como Património Cultural Escolar - procedimento que, lamentavelmente, se verifica recorrentemente.
Simultaneamente com a docência, António Júlio sempre manteve o desenho e a criação de Escultura: desta fase dos anos ’80, recordamos - vistos na Imargem, Galeria Municipal de Almada -, grupos de figuras verticais solidárias (alt: c. 60cm); uma forma em penetração horizontal, poderosamente sensual (c. 50 cm), patinada com cor; e já não fomos a tempo de ver a árvore-Andrógeno, de 450 cm de altura, em 1986 pintada e esculpida com cimento, que se perderia no Jardim Público da Cova da Piedade.
Forçado a deixar o Ensino por motivo de saúde, António Júlio prosseguiu a sua responsabilização pedagógico-cultural pela intervenção autárquica em Almada: voltámos a encontrá-lo - e seria a última vez! - em 2012, na Galeria Municipal de Almada, com a Equipa Organizadora do Concurso-Projecto REUSA e da respectiva. Exposição; e a entregar os prémios aos alunos das Escolas de Almada.
Vd. Fig. 5. Selecção de Fotos, EO.:
- António Júlio usou palavras incisivas, comunicativas e impulsionadoras; esquecíamo-nos de que já estava doente, tal era a energia estimulante que passava para os alunos!
O último encontro já foi em diálogo só com as obras de António Júlio, expostas em homenagens póstumas na Galeria Municipal de Almada – a que se realizou em Setembro de 2018, altamente reveladora, sincrónica e diacronicamente, do seu processo criador.
Olhando agora, em síntese, para uma panorâmica da escultura de António Júlio, destacamos a sua entrega total, mesmo lutando com o pó da pedra que lhe minava os pulmões; e, plasticamente, diremos que, de mais único – caracter da sua originalidade -, perdurarão na nossa memória:
-
a árvore-Andrógeno, em sinergia com a natureza, mas numa inversão-resignificação da forma natural
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os resistentes reflexivos, responsáveis e vigilantes - Pastor, Guardião, Quixote, Poeta; muitas vezes com esteios verticais de inox
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a ternura e perfeição de esfera, da Família, em estrutura-cascata de reais abraços de formas de inox horizontais
Fig. 6. António Júlio: Escultura de Família (pormenor do topo).
Mármore polícromo e aço inox. 1999. Altura: 190 cm...
Exposição póstuma na Galeria Municipal de Almada. Dezembro 2015. Foto EO.
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os quadros, dos quais o pó-de-pedra amorosamente se torna pele, numa descoberta matérico-táctil e visão estética pioneiramente ecológicas
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os grupos dos grandes ideais da Humanidade, para o espaço público, como no Monumento à Solidariedade - matéria dominada corpo-a-corpo, para nos despertar os sentidos e o sentido
Fig. 7. António Júlio na Galeria Municipal de Almada. 2012:
Segura o nosso Livro de 2010, onde se incluem as imagens dos Projectos que orientou,
mencionados na Ficha Nº 77 do ExplorEAUL. Foto EO.
(A Ficha Nº 78 do ExplorEAUL inclui Projectos orientados por Elsa Pinheiro)
A energia criadora e relação humana de António Júlio em Arte-Educação-Cidadania, eco-precursora COM os Outros e a Envolvente-Casa comum, marcaram as Pessoas e Lugares onde COMviveu, prosseguindo imparável uma rizomática marca agora e para o futuro, à medida que a sua obra for fazendo parte da nossa memória-imaginário-acção.
*Pintora ESBAL. Ph D-Cs. Edu-FPCE/IE-UL. 1ª Conselheira Mundial portuguesa da InSEA/UNESCO, ’88-’97. Actual Investigadora pro-bono, no CIEBA-FBAUL.







Tema. Esculturas: 1. Stabile; 2. Mobile
Orientação António Júlio (Pereira)
Autoria. 1. Bruno Sousa; 2. João Boléu
Data. 1985
Idade. 17
Ano Esc. 10º
Escola/Local. Escola Secundária
D. Pedro V. Lisboa
Técnica. Volume – Metal.
Dimensão (cm). 1. 250; 2. 300
Processo/Disseminação de Experiência:
Projecto em TEPR (Ensino Secundário).
Implantação no jardim da escola.
(1, em fase de conclusão).
Difusão em exposição e no Catálogo FCG
1996, por selecção da investigadora.
Obs. 1. Este aluno formou-se em Artes.
Leccionou no Ensino Básico-Secundário.
E participou em Exposições.
Os Professores do 5º Grupo desta Escolas, foram dispensados de tarefas administrativas (matrículas -horários), para esta valorização da escola, durante Julho de 1985.
